Última actualização: 13 May 2016.
  • Font size:
  • Decrease
  • Reset
  • Increase
18-07-2018
Director: Filomena Marta
Periodicidade: Semanal

Desmistificando a toxoplasmose

 

 

Desmistificando a toxoplasmose
por Carla Cosmelli Guerra (Dra.)

Ainda hoje, apesar da quantidade de informação disponível, muitas mulheres que engravidam procuram desfazer-se dos seus gatos, muitos deles companheiros de estimação há largos anos. A culpa desta situação é o mito construído à volta de uma doença chamada toxoplasmose, cuja culpa é atribuída essencialmente aos gatos. É importante desmistificar a toxoplasmose, para bem das mulheres e destes pequenos e simpáticos animais.

O que muitas vezes é ainda mais preocupante é verificar o conselho de médicos obstetras, mas não só, no sentido de a mulher grávida se desfazer do seu gato. Isto revela falta de informação e conhecimento por parte de alguns destes clínicos, não só pela má informação prestada, mas também porque algumas mulheres se vêem confrontadas com o sofrimento de ter de escolher entre a segurança da sua gravidez e a companhia de um animal muito amado e que consideram parte da família, muitas vezes como um filho.

 

 

A probabilidade de um gato transmitir toxoplasmose a uma pessoa é extremamente baixa. Em relação a gatos que vivem há vários anos em casa dos donos, sem acesso à rua, logo sem caçar pequenos animais, e sem acesso a carne crua em casa, é simplesmente impossível que esse gato seja foco de infecção para os seus donos.

Vale a pena repetir: mesmo que um gato esteja infectado, imaginemos essa hipótese, a possibilidade de transmitir toxoplasmose a uma pessoa é extremamente baixa.

Um gato só liberta o organismo parasita responsável pela toxoplasmose, o Toxoplasma Gondii (T. Gondii), durante poucos dias em toda a sua vida. A possibilidade de exposição de uma pessoa a este parasita é baixa. O facto de ter um gato não significa que vai ser infectado com esta doença e é importante perceber isso.

É muito pouco provável que uma pessoa seja infectada por tocar num gato, mexer nele e acariciá-lo. Da mesma forma, não será infectada por arranhões ou mordidelas, essa é uma hipótese muito diminuta. Mais ainda, gatos que vivem em casa, que não caçam nem comem carne crua, é impossível estarem contaminados com o toxoplasma.

O que é a toxoplasmose?

A toxoplasmose é uma doença causada por um parasita unicelular chamado Toxoplasma Gondii (T. Gondii) e é uma das doenças parasitárias mais vulgares, tendo sido encontrada em quase todos os animais de sangue quente, incluindo pessoas e animais de estimação. No entanto, apesar de ser tão comum, este parasita muito raramente provoca doença clínica significativa nos gatos ou em qualquer outra espécie, incluindo humanos.

O ciclo de vida do T. Gondii é complexo e envolve dois tipos de hospedeiros (que transportam o parasita): intermediário e definitivo.

Os gatos, tanto os domésticos como os selvagens, ou seja, a classe dos felinos, são os únicos hospedeiros definitivos, o que significa que o parasita só consegue produzir ovos (oocistos) quando infecta um felino. Por sua vez o gato é contaminado quando se alimenta de um animal infectado, sendo este um hospedeiro intermediário, ou seja, que transmite o parasita mas no qual o parasita não consegue produzir ovos. No entanto, se o gato comer carne crua infectada, mesmo que seja carne de supermercado, pode ficar contaminado, tal como a pessoa que comer essa carne. Esta é razão por que nunca deve comer carne crua ou mal passada. Porquê? Porque essa carne pode estar infectada com cistos provocados pelo toxoplasma que, como já vimos, é muito comum.

O ciclo pode ser tão simples como isto: uma vaca come erva onde estão presentes oocistos (ovos), fica infectada com toxoplasma que vai alojar-se nos tecidos em forma de cistos, que ficam latentes. Ao consumir essa carne com os cistos, uma pessoa ou outro animal ficam infectados também. Ou seja, a possibilidade de contaminação através dos ovos que possam ser expelidos pelos gatos é inclusive mais baixa do que a possibilidade de ser infectado por comer carne crua (ou mal passada) ou vegetais crus mal lavados e mal desinfectados.

Quando um gato come um alimento infectado com cistos, o parasita é libertado no seu tracto digestivo. Estes organismos depois multiplicam-se nas paredes do intestino delgado e produzem oocistos (ovos) durante aquilo a que se chama o ciclo de infecção intraintestinal. Depois, estes oocistos são libertados nas fezes do gato, geralmente entre três e 21 dias após o gato ser infectado. A libertação continua durante cerca de 10 a 14 dias.

Só por isto, por este ciclo de infecção e libertação, se verifica que um gato que viva há apenas meia dúzia de meses ou um ano com os seus donos, sem acesso a carne crua, não pode ser transmissor de toxoplasmose. Por isso, é incompreensível que um médico possa aconselhar uma grávida a desfazer-se do gato que vive consigo há muitos anos, mas não a alerte para os perigos de comer carne mal passada e vegetais crus mal lavados, esses sim grandes responsáveis pela transmissão do toxoplasma.

 

 

Mas ainda há mais: mesmo que um gato esteja infectado e esteja a libertar oocistos, estes ovos não são imediatamente infecciosos para outros animais, incluindo pessoas. Primeiro têm de passar por um processo chamado esporulação, que demora entre um e cinco dias a acontecer, dependendo das condições ambientais. Portanto, se a caixinha do gato for limpa diariamente, mesmo que o gato esteja infectado os oocistos são retirados do ambiente antes de entrarem em esporulação.

Depois de entrarem em esporulação, os oocistos são infecciosos para os gatos, pessoas e outros hospedeiros intermediários. A infecção deve-se à ingestão de oocistos esporulados (ou seja, tem de os comer) e resulta na formação de cistos em diversos tecidos do corpo, que permanecem toda a vida no hospedeiro intermediário e são infecciosos para gatos, pessoas e outros animais se este tecido com cistos for ingerido. É assim que é transmitido através da carne crua.

Como as pessoas “apanham” toxoplasmose?

O contacto com solo (terra) contaminado por oocistos é talvez o maior meio de exposição ao Toxoplasma Gondii para diversas espécies, como roedores, pássaros, ovelhas e cabras, porcos, gado e seres humanos que vivem em países em vias de desenvolvimento (não é o caso de Portugal). Nos países industrializados, como o nosso, a maior parte da contaminação é devida à ingestão de carne infectada crua ou mal passada, principalmente de cordeiro e porco. As pessoas também podem ser infectadas por comerem frutas e vegetais não lavados ou mal lavados.

Este organismo também pode estar presente em produtos lácteos não-pasteurizados, como o leite de cabra.

É exactamente o que foi referido em cima, é preciso “comer” os oocistos para ficar infectado. Por isso, mesmo que limpe a caixinha de areia (o que nem sequer é feito com as mãos) basta não pôr as mãos na boca ou tocar em alimentos antes de as lavar muito bem, mais nada. Lave também a pá da areia. Ainda assim tem medo? Compre um spray desinfectante para a pá e superfícies e desinfecte as mãos. É simplesmente uma questão de higiene.

As mulheres grávidas e as pessoas imunodeficientes, são grupos de risco, e sem dúvida que a infecção congénita, da mãe para o feto, é uma das grandes preocupações de médicos e grávidas.

O que fazer para prevenir a toxoplasmose?

Há alguns passos de higiene pessoal, de ambiente e de segurança alimentar que podem e devem ser dados para prevenir o contágio com toxoplasma:

* Não comer carne crua ou mal passada. A carne deve ser cozinhada a uma temperatura de pelo menos 70 graus durante 20 minutos.
* Não beber leite não-pasteurizado.
* Não comer frutas e vegetais não lavados.
* Lavar as mãos e superfícies de preparação de alimentos com água quente e detergente depois de tratar de carne crua.
* Usar luvas na jardinagem e lavar as mãos depois de jardinar.
* Lavar as mãos antes de comer.
* Não beber água da torneira, beber apenas água engarrafada. Água não engarrafada deve ser fervida.
* Não dar carne crua ou mal passada aos gatos, nem leite não-pasteurizado.
* Não deixar os gatos sair de casa, nem caçar ou vaguear no exterior.
* Não deixar o gato usar o jardim como WC
* Remover as fezes da caixa de areia todos os dias e desinfectar com água a ferver ou um produto desinfectante seguro para animais.
* As mulheres grávidas e pessoas imunodeprimidas devem evitar limpar as caixas de areia.
* Mantenha um controlo eficaz da população de ratos, bem como de outros potenciais hospedeiros intermédios.

 

 

Em resumo, entendendo o modo de transmissão entende-se como o risco de contrair toxoplasmose é mínimo. Mesmo um gato com uma infecção activa só é capaz de transmitir toxoplasmose durante um período de tempo muito curto, entre sete a dez dias em toda a sua vida, e isto quando existe uma infecção aguda, ou seja, quando está a libertar oocistos. Por isso, a grande maioria de fezes de gato não apresenta oocistos. Os oocistos libertados nas fezes levam entre um a cinco dias a tornar-se infecciosos, o que significa que a caixa de areia tem de estar sem ser limpa entre um a cinco dias para que a infecção possa ser transmitida. Mais ainda, para sermos infectados a partir de fezes de gato temos de tocar/mexer nas fezes e depois tocar numa abertura do nosso corpo, como a boca, nariz ou uma ferida aberta.

Se está grávida fique com o seu gato… MAS:

1. Não coma nem dê a comer ao seu gato carne crua ou mal passada e desinfecte o que tenha estado em contacto com carne crua.
2. Mantenha a caixa de areia limpa diariamente, use luvas descartáveis e lave as mãos em seguida.
3. Não faça jardinagem e se fizer use luvas descartáveis e lave as mãos em seguida.
4. Lave e desinfecte bem os vegetais crus, de preferência prefira vegetais bem cozinhados.
5. Não coma produtos lácteos não-pasteurizados.
6. Se for protectora de gatos de rua e estiver grávida, use sempre luvas quando estiver perto das zonas onde os gatos defecam e não mexa na terra com as mãos sem luvas ou se não puder lavar as mãos a seguir. Lembre-se que os gatos são instintivamente limpos e não defecam perto do sítio onde comem.

E se mesmo assim ainda tiver ficado com receios, desnecessários, lembre-se que basta que use luvas para limpar a caixinha de areia e lave sempre as mãos… ou pedir a outra pessoa que se encarregue dessa tarefa.

É impossível “apanhar” toxoplasmose de um gato que vive consigo há muito tempo e a toxoplasmose não é transmissível por fazer festas e conviver com um gato. O pequeníssimo risco que existe está apenas e só na caixinha de areia, e não existe sequer se o gato estiver consigo há apenas um mês e não comer carne crua.


Seja feliz com a sua gravidez e com o seu gato.

 

 

 

Comentar


Código de segurança
Atualizar

     

Publicidade

Videos de Socorro a Animais

Online

Flag Counter

___________________________________________________